Sou do tempo em que, ao sair pelas ruas, meu pai me mandava tomar a bênção de todas as pessoas com cabelos brancos e dizer: "Sua benção vovô (ó)!" E, creio, por isso sou de fato muito abençoado.
Sou do tempo em que os meus pais e os pais dos meus amigos de infância separavam um dia na semana para brincar com os seus filhos. A coisa mais interessante não eram as brincadeiras, mas o modo como aqueles homens e mulheres rompiam com as barreiras, acabavam se conhecendo e dando a conhecer, e a vizinhança era mais humana e próxima. Quase não se via fofoca, mas se via muita solidariedade.
Sou do tempo em que, na sala de aula, os alunos se levantavam e permaneciam em pé sempre que uma pessoa adulta adentrava à sala. Só se sentava após orientação para fazê-lo. Dizia entusiasticamente: "Bom dia!" E cantava sempre uma canção de boas vindas.
Sou do tempo em que, no pátio da escola, todas as segundas-feiras cantávamos os Hinos Nacional, da República, da Bandeira, Canção do Soldado e do Marinheiro. E tínhamos que saber a letra, não podia apenas fazer mímica.
Sou do tempo em que se aprendia matemática cantando a tabuada, tirar a prova real e a prova dos nove. Confesso que não me lembro se estas significavam a mesma coisa, mas estou certo de matemática era semelhante a aprender o português. Aprendia-se fazendo cálculos e não se marcava com "X" as respostas dos problemas.
Sou do tempo que, quando um adulto estava conversando na sala, as crianças não participavam da conversa. Se precisasse cruzar a sala a melhor opção era esperar o fim da prosa. Até podia fazê-lo pedindo licença, com toda a educação, mas éramos ensinados a esperar a nossa vez. Criança não chamava a atenção, não fazia birra nem pirraça; muito menos respondia os pais, dizia palavrões ou mesmo encarava os pais.
Sou do tempo em que os melhores brinquedos eram aqueles feitos por alguém que nós gostávamos muito e não precisava sequer de corda ou pilha, mas que desse asas à imaginação. Esta permitia-nos brincar horas a fio, divertia-nos muito e dormíamos pesados. Ninguém abria a boca para dizer: "esse menino usa "duracell" ou "tem energia demais!" Nossas energias eram queimadas pra valer em brincadeiras saudáveis.
Sou do tempo em que os vizinhos, todas as noites, traziam suas cadeiras, sentavam-se nas calçadas e conversavam sobre si. Lembro que era uma época em que todos se conheciam. Quando paravam para se cumprimentar sabiam o que dizer e o que perguntar: "Melhorou daquele problema?" "Seu filho obteve a vaga na escola federal?" Tinham tempo para si e para os outros. Encontravam-se sempre nas festas de família, cumprimentavam-se por ocasião das festas de fim de ano. Quando se encontravam num velório era para chorar sentindo a perda de alguém que se conhecia de fato.
Pode parecer que ao escrever todas estas coisas eu seja um saudosista. Na verdade não é isso. Estou compartilhando um tempo que vivi e que alguns de vocês também viveram. Uma época que existiu de fato e não apenas algo que possa ser lido em livros do passado.
Creio que não precisamos voltar a fazer todas estas coisas. Os tempos são outros e nós temos que nos adaptar a este contexto. Contudo, como pessoas, precisamos "baixar os faróis" para olharmos uns para os outros e compartilharmos o que temos em comum. E como temos coisas em comum!
Quem é motorista sabe que há momentos na estrada em que é preciso baixar os faróis para ver melhor as coisas. Na vida há momentos parecidos: você desliga o farol alto, acende a luz baixa e... começa a ver melhor. "Ih! Você está aí! Que legal! Deixe-me lhe dar um abraço!" Isso pode ser quando está saindo de casa para trabalhar; quando chega no trabalho e encontra um colega "pra baixo"; pode ser num momento em que alguém diz para você "estou muito machucado, alguém que tanto amo me feriu bastante hoje!". O que você pode oferecer?
Pode ser com uma criança. Ela, tão inocente, resolve parar bem na sua frente, querendo brincar. Você não tem tempo para brincar, está correndo. Mas pode, simplesmente, dar-lhe um sorriso, fazer um afago, dar-lhe um beijo ou um abraço, pegando-a no colo. Um minuto oferecido a alguém pode fazer sua vida melhor por um momento, por todo o dia ou até mesmo marcá-la para sempre.
Imagens:
Sou do Tempo em que… - Everything about Anything
Bons Tempos - Fundação Metropolitana Belo Horizonte







Olá,
Também sou desse tempo, talvez um pouquinho depois, mas me lembro de muitas coisas. Agora somos do tempo em que ficamos todo o tempo diante do computador.
bjs
Se isso faz de você um saudosista, então somos dois. Adorei teu texto, parabéns.
Abração.
António,
Adorei o teu texto! Eu não sou exactamente desse tempo, mas nem de perto nem de longe sou deste!
Grande abraço
Luísa
Tempo bom este …
Da saudade , mas não volta tão cedo ….
Paz Antonio!
Não moro em cidade grande,mas muita coisa mudou do meu tempo de infância para os dias atuais.Hoje as crianças bate-boca com os professores,querem falar mais alto que os pais e por sua vez os pais estão ocupados demais pra dar atenção aos filhos.Me divertia muito mais com os brinquedos feitos por mim mesma.
Bons tempos!
Leila,
Aí é que mora o segredo: está em nossas mãos buscar e reencontrar o outro. De uns tempos para cá parece que as pessoas embruteceram e, por isso mesmo, passaram a rejeitar o outro; ou ficaram tímidas demais a ponto de não mais falar com o seu próximo, ainda que seja um bom dia, com aperto de mãos ou abraço.
Acho que podemos melhorar isto, mesmo que nos custe levantar e deixar de lado o computador.
Abraço e obrigado pelo comentário.
Antonio
Caro pensador,
Se tivermos de ser vistos assim – como saudosistas – que assim seja. Vejo uma necessidade de fazermos a diferença pelo nosso próprio bem e para o bem dos outros.
Note que há alguns anos atrás não ouvíamos falar em depressão. Um dos motivos da depressão é a ausência do outro: diálogo, abraço, afeto, carinho, presença…
Obrigado amigo pelo comentário solidário.
Abraço
Luísa,
Talvez a questão não seja a proximidade de idades ou gerações, mas cultural. Fui criado e educado em bairros e não nos grandes centros ou zona sul da cidade. Contudo, também não sou do Interior. Mas era assim na minha infância.
Creio que a grande perda está em não conhecermos mais o nosso próximo. Quando conhecemos um pouquinho mais ficamos mais próximos e isso causa um bem estar, pelo menos é assim que vejo.
Um forte abraço e obrigado pelo oportuno comentário.
Antonio
Tuninho,
Esse tempo era muito bom e, eu tenho muitas saudades dele. Um tempo em que brincávamos à valer e nos esbaldávamos na rua, na pracinha,sem medo de balas e assaltos. Bom se pudéssemos retroceder para que as crianças de hoje víssemos como éramos felizes.
Beijos
Bah, como vinte ou trinta anos fazem diferança!
Também vivi boa parte dessas experiências, mesmo discordando de algumas delas na época, vejo o quanto isso era bom para a formação de pessoas de bem.
Sonia,
Ainda temos crianças por perto. Por isso, aproveitar para conversar e brincar com elas, constitui-se num grande investimento. Lindo comentário!
Beijo do seu marido,
Tuninho
Adorei seu texto, me transportei no tempo em que eu também vivi isso…
Os tempos são outros, você até senta na calçada, mas não fica relaxado como antes está sempre assustado, alerta.
Sinto saudades desse tempo…e eu morava na capital, e até hoje por aqui algumas pessoas ainda tem o hábito de sentar na calçada, só não se tem a mesma tranquilidade de antes.
Bjos
Olá Antonio,
sou deste tempo, tempo bom.. em que tinha diversão e respeito, muita coisa boa para recordar, bela viagem no tempo, em que fomos muito felizes…
Abraço
Lu,
Sei disso e não é diferente por aqui. Mas no final do ano passado tive alguns momentos gratificantes. Havia anos que não fazia e confesso que nem lembrava a última vez. Mas final de 2009 tanto no Natal quanto na passagem de ano, estive na casa de alguns vizinhos (acho que três no máximo) e fui me confraternizar com eles.
Estiveram presentes nos momentos mais difíceis que passei e senti uma vontade de abraçá-los e demonstrar o meu carinho por eles, por tudo quanto participaram.
Foi tão bom. Todos ficamos emocionados. Achei que os filhos – adolescentes – iriam reprovar e até achar sem nexo aquela atitude. Ao contrário, eles acharam o máximo e até hoje comentam que acharam legal a minha ida até a casa deles.
Pode parecer pouco, mesmo que seja uma vez ou outra, vale a pena ir e se dar ao outro.
Agradeço seu precioso comentário.
Abraço do amigo,
Antonio
Elisa, paz!
Sei que os tempos mudaram, a realidade é outra, mas ainda podemos fazer a diferença.
Minha neta de 8 anos já é fera no computador. Contudo, vez por outra, vem até mim pedindo para fazer uma pipa, fazer rabiola para a pipa, ou ir com ela na praça e brincar um pouco.
Uma das coisas que ela gosta de fazer é recortar, colar e desenhar. Às vezes estou cheio de coisas para fazer. Quando minhas filhas eram pequenas priorizei as minhas coisas e perdi alguns momentos da infância delas. Agora tenho tentado curtir a infância da minha neta, antes que ela cresça e não queira mais brincar.
Abraço e obrigado por comentar.
Masso,
Realmente não volta, mas podemos fazer como aquelas festas de época, realizadas por “saudosistas”. Em frente a minha casa tem uma praça e nunca vi os guris jogando bola de gude. Eu gostava demais de jogar triângulo, búlica, mata-mata etc. Outras brincadeiras que acho que os meninos nem saibam mais o que é: jogar botão e um outro que fazíamos com cabo de vassoura: jogadores e traves com pedaços do cabo e as redes eram com aqueles sacos para colocar laranja. Tinha torcida e tudo mais.
Ainda estou com limitações físicas para abaixar. Mas estou melhorando. Em breve vou arriscar montar uma brincadeira com eles. Se der, até posto e acho que vai resgatar alguma coisa para eles.
Abraço e obrigado por comentar.
Excelente texto, Antonio!
Acho que vivi um pouco desse tempo.
Lendo seu texto e comparando com o que vem acontecendo, tive a nítida sensação de que se perdeu muito com o passar do tempo. Hoje em dia, alunos não respeitam professores, crianças não respeitam adultos e por aí vai uma lista gigante de falta de limites que tornam nossa sociedade menos bonita.
Um forte abraço!
Não sou deste tempo, mais muita coisa me foi passada por meus pais e que dou muita importância e vivo algumas no dia de hoje.
Abraços forte
Pois é…
Tempo que passou, ficou a saudade e a melancolia, ficou até mesmo um pouquinho de depressão (nunca vi tanta gente c/essa doença como vejo hoje,até eu mesma as vezes me pego triste sem saber porquê) pois hoje as pessoas são feito máquinas, vivem como máquinas e não amam mais, pois máquinas não tem sentimentos, chegamos no tempo em que o amor de muitos se esfriariam e se esfriou.
Sou do tempo em que a família se reunia para assistir ao jornal e saber o que acontecia no mundo, hoje as famílias já não se reunem mais, e as notícias são cada vez mais assustadoras. Crianças que são violentadas, maltratadas e abandonada as pencas por dia como uma coisa natural, idosos que são surrados e humilhados por aqueles que deveriam amar, cuidar e respeitar, balas que são encontradas aos montes como se vivessemos no viatnã, drogas que aparecem cada vez mais fortes e mais baratas tirando de uma vez por todas nossos jovens de casa e da família, músicas que são tocas sem a menor censura e que fere os nossos ovidos, nossa cultura e nossos valores, isso p/quem tem valores, pois hoje as crianças crescem sem valores algum, pois essa missão tem sido passada aos professores, ducadores e colaboradores.
Bom escrevi de mais né? espero que um dia a gente acorde e isso tudo mude ou então…
Estou emocionada com a beleza desse texto. Lindo e sincero, sem sombra de dúvidas.
Tenho 35 anos e posso afirmar que sinto falta de muitas coisas que aconteciam quando eu era criança. A diferença é notória e sinto um certo pesar em perceber que hoje em dia perderam-se muitos valores. Tenho duas filhas pequenas e uma das coisas que mais prezo é o respeito e a questão dos valores. Tenho tido algumas dificuldades como mãe por causa disso, mas não me canso de lutar. As coisas hoje em dia estão muito mudadas, até mesmo a televisão virou um inimigo para os pais que desejam dar uma boa educação para os filhos. Lamentável!
Um grande abraço e fique em paz…
Até breve!
Cunhado, parabens pelo artigo de grande riquesa e profundidade. Eu tbm. sou deste tempo. Me orgulho deste tempo. Diga-se de passagem que se eu pudesse eu voltava o tempo. Hoje tudo eu que eu posso fazer e lembrar com saudade este precioso, saudavel, memoravel, feliz TEMPO…
Parabéns pelo texto cheio de vida, que me fez lembrar da minha infância, onde brincava até não aguentar mais. E isso sem deixar de me dedicar aos estudos. Hoje, sou professora e ainda me espanto com a forma como as crianças se comportam. Elas estão mais violentas, parece que a imaginação tem diminuído, reflexos da vida conturbada que levamos hoje em dia. Algumas mudanças foram positivas e necessárias, tais como a possibilidade de ouvir a opinião das crianças e adolescentes, de vê-las como membros atuantes na sociedade, mas, infelizmente, apenas uma minoria consegue usufruir com sabedoria do tão importante diálogo.
“É preciso baixar os faróis, ‘pra’ gente ver, por entre os prédios e nós…”
Abraços…
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